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Miguel Von Hafe Pérez

Francisco Queirós (Lisbon, 1972; lives and works in Sintra) is one of the most exciting figures on the present Portuguese art scene. His output is defined by the use of video and the creation of installations that build a visual universe which is easily recognisable for its strangeness and singularity.
At an early stage, the works were based on the construction of narratives related to the world of children, but subverted by perverse actions borrowed from the world of adults. His latest works defend an iconographic and space-time ambiguity to better hint at an atmosphere of ambivalent sensations.
Swinging between the optimism of liberating gestures and the failures that follow, the narratives set off a spiral of anxieties highlighted by the open interpretation they demand.

 

In the installation created for the Centre d’Art Santa Mònica, Francisco de Quierós has made the videos If you trap the moment before it’s ripe, previously presented at the Museu de Serralves in Porto, and Never pain to tell thy Love, a new creation, with the three-dimensional piece entitled I laid me down upon a bank. These are structures that refer to the idea of inhabitability and safety in different states of material deterioration: the sequence points to the silent, inexorable process of disappearance, as if a deus ex machina were forcing destiny, before which we are relegated to a position of lethargy and resignation. That state finds a disturbing echo in the characters in the video, angels or butterflies whose flight is cut short and are therefore prey to the anxiety of an eternal return.

 


 

Francisco Queirós (Lisboa, 1972; vive e trabalha em Sintra) tem vindo a afirmar-se como uma das mais estimulantes presenças no panorama recente da arte portuguesa. As suas produções definem-se a partir da utilização do vídeo e da criação de instalações que edificam um universo visual imediatamente reconhecível pela sua estranheza e singularidade.
Numa primeira fase estes territórios ancoravam-se na construção de narrativas associáveis ao mundo infantil que se viam subvertidas por via de acções de uma perversidade emprestada aos comportamentos dos adultos. As últimas propostas afirmam-se a partir de uma ambiguidade iconográfica e espacio-temporal para melhor insinuar uma atmosfera de sensações ambivalentes.

 

Na instalação criada para o Centro de Arte Santa Mònica, Francisco Queirós articula os vídeos “If you trap the moment before its ripe “, anteriormente apresentado no Museu de Serralves no Porto, e “Never pain to tell thy Love”, que é uma criação inédita, com a peça tridimensional intitulada “I laid me down upon a bank”. Aí dispõem-se estruturas que remetem para a ideia de habitabilidade e segurança em diferentes estados de deterioração material: a sequência aponta para um processo silencioso e inexorável de desaparecimento, como se um “deus ex machina” lhes forçasse o destino e perante o qual somos remetidos para uma posição de letargia e resignação.


Este estado encontra um eco perturbador nas personagens dos vídeos que são remetidas para a inquietação de um eterno retorno. Oscilando entre o optimismo de gestos libertadores e os sequentes fracassos, estas narrativas instauram uma espiral de angústia que se sublinha mediante a circularidade própria dos vídeos em loop permanente e pelo carácter minimalista das respectivas bandas sonoras.
As protagonistas dos vídeos encerram toda uma série de contradições, que assentam essencialmente no facto de por um lado remeterem para figuras arquetípicas, por outro se definirem como exemplos de grupos sociais contemporâneos: assim, a figura do anjo constrói-se a partir de uma jovem que evidencia marcas de uma urbanidade cosmopolita e a rapariga oriental ostenta uma beleza e vitalidade próprias de modelos profissionais, pouco condizentes com o traje que veste, que pelo corte e pelo modo como é apertado supostamente se destinaria a vestir os mortos para um enterro. A intensidade que o artista imprime aos seus trabalhos sedimenta-se, então, num inteligente jogo entre referências culturais fortemente codificadas (a casa, o anjo, a gueixa), e a posterior quebra de expectativas relativamente aquilo que seriam as suas representações ou acções convencionais. 


Daí não seja estranho que o artista, num gesto mais desviante da transparência interpretativa do que o contrário, se sirva da poesia de William Blake para intitular as suas obras: na verdade, e tal como este autor romântico, é no interior do mais pungente lirismo que ele vai descobrir o lado mais negro da existência. E tal como o poeta, que afirmava a absoluta necessidade de desenvolver um espaço criativo idiossincrático (I must create a system, or be enslaved by another man's), Francisco Queirós demonstra uma particular capacidade de nos surpreender com uma produção que não encontra paralelo visual num contexto cada vez mais previsível.