Imagens Caídas

Carlos Vidal

Os três últimos videos de Francisco Queirós (I feard the fury of my wind, 2002; Eternity, 2003; If you trap the moment before its ripe, 2003) apresentados no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS, 22/7 a 5/10) vêm confirmar-me uma hipótese interpretativa: o autor constrói territórios (através do uso calculado do loop, de efeitos visuais no programa «After Effects», etc) onde a corporalidade das imagens fixa a imagem dos corpos tal como os conhecemos. Ou seja, ainda que estes jogos de linguagem me causem por vezes alguma impaciência, neste trabalho não existe qualquer diferença entre «corpo de imagens» ou «produção de imagens» e «imagens de corpos», porque ambos partilham dos mesmos valores de fisicalidade, humanidade e organicidade.
As imagens destas obras têm uma fisicalidade decididamente biológica, e os (seus) corpos estão nessa organicidade circunscritos: imagem e corpo são um só. Deduz-se a impossibilidade de autonomia de uma destas partes: nem a imagem se separa da sua corporalidade, nem o corpo prescinde da sua imagem (única, singular e orgânica). Quando a imagem tenta escapar-se da corporalidade, como veremos, cai no corpo – o inverso também é verificável, e o tema da queda é aliás um mote interessante para a leitura deste três videos e exposição intitulada Yupi.

 

Perceber-se-á esta fusão através de outra instalação do autor. Remeto para um curioso trabalho inédito e ainda de formação escolar, constituído por três monitores onde se enfatiza o paralelo entre o nascimento das imagens e as funções básicas do corpo humano. A imagem é uma digestão e subsequente dejecção. Num dos monitores um grande plano dos lábios de vários personagens sinaliza a assimilação da comida; noutro, uma barriga contrai-se e distende-se, para num terceiro o mesmo ocorrer com vários pares de nádegas. A cada um desses conjuntos cabe (conceptualmente) uma letra -- R / G / B, as três letras que enformam o sistema de produção de cores em televisão; estas correspondem a três partes do corpo: boca / estômago / ânus. A imagem é uma digestão-corpo.
Ora, deste primado da organicidade parte uma filosofia crítica da imagem tecnologicamente produzida, que aparta Francisco Queirós (apesar dos pictóricos e exuberantes efeitos visuais destas obras expostas no MACS) de uma qualquer lógica de simulacros e simulação, da confusão entre «mundo» e «imagem do mundo» e de uma eventual produção técnica da subjectividade.

 

Retomo um comentário nada abonatório de Peter Sloterdijk sobre Paul Virilio. Para Virilio o tempo contemporâneo das teletecnologias, ou o cibermundo, é o pior dos mundos, por pretender suprimir, como nunca, o espaço do pensamento e da liberdade (pois não existe democracia em tempo real): para este autor, as teletecnologias apenas pretendem administrar-nos globalmente, retirando-nos do espaço e vigiando-nos o tempo. 
Peter Sloterdijk caracteriza então Virilio como um nostálgico da dominação da primeira forma de pensamento globalizante: o cristianismo, de que o teórico francês é, por assim dizer, militante. No trabalho de Sloterdijk, por outro lado, a necessidade de revolução é vista como imprescindível para a definição do homem: ele é um animal do Advento. Daí a sua proposta de uma antropologia cinética ou de uma analítica do vir-ao-mundo, onde a técnica é o novo sujeito. 
Em resumo, interessa-me pensar estes videos de Francisco Queirós como um percurso diferenciado desta espécie de celebração de Sloterdijk, do cepticismo de Jean Baudrillard, e, obviamento, do moralismo de Virilio. Paradoxalmente, vejo aqui um «retorno do real»: a equivalência imagem-corpo é o mote de Queirós, como sugeri, e a queda (ou a falha) é a sua figura impulsionadora.

 

Estes videos remetem para formas e significações (embora num plano de grande ambiguidade) comuns. Cada um é protagonizado por uma figura imaginária: um anjo que não voa, maculado por tatuagens azuladas no corpo, anjo estranho e alheado de tudo quanto o cerca; um centauro de torso feminino parcialmente ocultado (seios sempre tapados com os braços, criando uma expectativa nunca satisfeita de desocultação) exponencia o seu máximo poder, a sua força mitológica ... matando borboletas; por fim, temos uma sereia negra num corpo masculino transsexual. 
Todos estes protagonistas são filmados em grandes planos quando descrevem uma acção, pois a cada um parece caber uma acção (ainda que indefinida), cada video demorando o tempo de cada acção. Fragmento dissociativo que de imediato recomeça (sem acabar ?). Cada figura é isolada em fundo branco, sendo as suas sombras produzidas digitalmente indicadores mínimos de uma rarefeita espacialidade (logo, sem teatralidade reconhecível), numa artificialidade de conjunto prolongada nas sonoridades e restantes elementos: cães, borboletas (o único elemento comum aos três videos), papoilas (o único elemento filmado-fabricado em «pausa»), peixes e cogumelos.
Tudo se move, mas não existe o mínimo indício de vento na paisagem (que nem sequer é desolada); tudo é de uma luminosidade leitosa, mas não existe noite nem dia; tudo é natural e artificial, sintético e dessexualizado: território perverso de uma subjectividade e percepção «industrializadas». 
Enfim, retrato de uma «industrialização» em queda: a inexpressão computorizada de cada sequência é sintomaticamente fatal, frustrante e angustiante. Nenhuma acção sucede com normalidade e muito menos felicidade. Sintomatica e estranhamente, dizia, esta inexpressão nada tem de «neutro», antes prefigura um «mau final». Trata-se não apenas de uma crítica das imagens técnicas sem corpo (e em todos os videos as imagens se imaterializam, como que levitando, para depois na sua materialidade orgânica caírem irreparavelmente), mas também de uma visão não muito optimista do futuro da relação entre imagens e corpos. Daí a defesa de uma indissociabilidade imagem-corpo.

 

Vejamos o ilustrativo If you trap the moment before its ripe. Uma rapariga vestida de branco dorme até um grande plano dos seus pés, destacados do fundo neutro (sem vento, dia ou noite), revelar uma tentativa de elevação; por um instante o peso e a posição do corpo faz-nos hesitar (na linha do «mau final») entre o voo e o enforcamento; hesitação que é desde logo desfeita por um monótono ruído de bater de asas, sem vigor e anemicamente pesado. 
A queda deste anjo é o sinal de que cada tentativa de superação experimentada por cada imagem em relação ao seu corpo não pode resultar: como vimos na descrição atrás encetada de um trabalho inicial do autor, não há imagem que possa existir sem a concomitância da sua organicidade corporal. 
De cada vez que uma parte do corpo, enquanto imagem (encenada e construída), tenta negar a sua corporalidade-gravidade, o autor impossibilita a sua autonomização. Daí a falha e a queda (no corpo, de novo, permanentemente). O corpo do anjo não se esgota no seu fracasso, a sereia não pára de ser mordida pelas borboletas, o centauro é sempre cercado por um enxame ameaçador -- não há superação, há apenas corpos e orgãos. Em suma, apenas nós. E seres como nós inventados.